Não me interessa sua vida!

Publicado: 26 de agosto de 2011 por Guilherme Lucas em Instituição Igreja

Noite passada estava de plantão e sob meus cuidados estava um Senhor que apresentava o quadro de um câncer em estado avançado. Seu corpo apresentava lesões ulcerativas em região sacratrocantérica, membros superiores (mãos) e inferiores (pés). Sua respiração era ofegante e este apesar de lúcido era pouco responsivo a estímulos verbais apenas murmurando palavras desconexas quando mobilizávamo-lo. Confesso que vendo aquele homem moribundo em minha frente condoí-me mais que o usual e pensei que, apesar de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) ser um lugar repleto de pessoas, profissionais da área de saúde, especialistas no cuidado, uma pessoa que morre lá está mais sozinha que em qualquer outro lugar.
Pensei em como teria sido a vida daquele homem, suas realizações, suas lutas, seus fracassos, será que passara fome? Será que foi pai? Foi então que comecei a me perder em meus sentimentos: E se este homem fosse um alcoólatra que agredia sua família? E se ele traia sua esposa com alguém (uso a expressão alguém porque hoje em dia pode ser com Homem ou Mulher)? E se este homem moribundo que estava ali deitado inerte e sofredor fez algo horrível em sua vida? Algo que desmerecesse o que estava sentindo por ele. Sei que um princípio básico do cristianismo é não julgar, mas nos machucamos tantas vezes na vida por acreditar nas pessoas que esse reflexo de defesa passa a ser instantâneo e sempre que isso ocorre acabo me fechando ao toque do Espírito Santo e fazendo exclusivamente meu trabalho. Não me entenda mal, não trato mal a ninguém. Faço pior que isso: Não o trato bem!
Fazemos isso em nossa vida diariamente com mendigos, prostitutas, viciados, homossexuais e até com políticos. Olhamos para os frutos acreditando ter pleno conhecimento da árvore. Vemos o resultado errôneo na prova sem sequer procurarmos na descrição do raciocínio o que aconteceu para que o resultado não atendesse ao esperado. Consideramos que ao conhecer a ideologia de alguém podemos julgar seu caráter.
Quando comecei a pensar desta maneira deformada sobre aquele pobre homem resolvi dar um basta na situação pensando: “Não interessa a vida que este homem teve ninguém merece morrer assim!”. Em poucos segundos comecei a sentir um amor tão grande por aquele homem que cheguei a pensar que antes fosse eu do que ele naquele leito. Acho que naquele instante, naquela solitária sala de UTI durante a madrugada fria e desligado dos ruídos do mundo finalmente ouvi o Espirito Santo que, sem se interessar com minha vida pregressa ou meus pensamentos de condenação resolveu me tocar.
Postado originalmente por Alexandre Pepe em Crentassos
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